As botas de Ibrahimovic
terça-feira, 30 de março de 2010
O "meu" modelo de jogo
Ajax (clube) apresenta níveis de sucesso desportivo extremamente elevados. É um clube organizado, com estratégias claras, e sobretudo com uma filosofia de formar jogadores. O Ajax foi o pioneiro nesta aposta, semeou e esperou por resultados práticos. Para liderar a sua “Escola de Formação” teve e tem obviamente um director geral. Este tem como missão coordenar todos os aspectos da formação, seria fundamental ter um homem forte na parte desportiva e para liderar o projecto foi escolhido Leo Bennhaker. Este criou desde logo uma “malha” apertada, uma “rede” de prospecção na cidade de Amesterdão e foi “pescando” os melhores talentos, as melhores “tulipas” da cidade. Entre os valores encontrados surgiram logo: Kieft e Rijkaard.
O projecto continuou depois com outro técnico, o homem mudou, mas o projecto tinha pernas para andar.. e eis que surge Aro de Mos que preconiza a necessidade de alargar a prospecção, não somente a Amesterdão mas também aos seus subúrbios (num raio 50 kms). Foram então também encontrados jogadores famosos como: Vanenburg e Van Basten.
“Triângulos imaginários”
Mas o projecto viria a ter um 3º director desportivo, e que director, nada mais nada menos que: Johan Cruyff auxiliado por Tony Slot (que já foi técnico adjunto do Benfica).
Algumas inovações foram introduzidas, Cruiyff considerava que aos 8/10 anos, um miúdo já teria as características ideais para ser integrado. Destas idades até aos sub-14, eram e são orientados por experientes treinadores baseada numa relação com os jogadores quase paternal. O aspecto psicológico da criança tinha/tem prioridade.
Dos sub 15 /16, os treinadores já deveriam enveredar por uma atitude mais disciplinada. Nos juniores, os treinadores já deveriam dominar a estratégia, assim como o nível táctico, no fundo já visando a competição e também para facilitar a transição da formação para a alta competição. Depois escolheu treinadores específicos para o jogo ofensivo ou defensivo e foi então que também surgiu (hoje tão usual): os treinadores de guarda redes.
Finalmente e talvez no meu ponto de vista o mais importante ..um MODELO DE JOGO, igual em todas as equipas do Ajax. Optou inicialmente pelo 4-3-3, mas em “putos” de 8 anos, mudar de flanco não era tarefa fácil (falta obviamente força física ..ainda hoje vêem-se profissionais que não o fazem).. por isso criou um outro sistema táctico, até hoje famoso, baseado em “triângulos imaginários”. Um futebol, sobretudo mais apoiado, logo jogadores mais próximos, menos desgaste, mais espaço ocupado, era a bola que corria mais.
Depois veio Louis Van Gaal a liderar, um estudioso do futebol e de quem Mourinho foi adjunto no Barça, que criou um sistema de treino que podia ser aplicado dos 8/18 anos.. mas todos estes técnicos anteriormente referidos vão ter MERCADO.. Por exemplo o Barcelona e Real Madrid foram alguns dos clubes que os requisitaram.
Surge depois o Co Adriaanse (que passou no F.C.Porto) que implementa um sistema de interação com os estudos. Depois ainda Blind (antigo defesa) que foi o homem da casa que comandou este clube com nome de desinfectante...
Mas este Ajax não é um limpa vidros, nem agora também um Ajax (aplicativo informático), mas este poderoso clube (segundo consta um clube judeu) amontoou florins e agora euros e para isso foram muitas despesas ( o banco holandês ABN deu uma ajuda) na medida em que montar uma escola destas, teve elevados custos, mas o retorno em venda de jogadores foi lucrativo.
Actualmente (desde o verão de 2007), o director de todo aquele centro de formação é Jan Riekerink (ainda um desconhecido), mas concerteza um dia estará também no topo dos técnicos mundiais.
O Ajax tem o tal centro de formação, bem perto do ARENA, com 7 campos relvados, 2 deles sinteticos e onde acolhem 240 jogadores distribuídos por 14 categorias, possuindo 7 equipas nos campeonatos nacionais.
Ajax tem apenas 4 palavras e a sua filosofia outras 4 palavras:
TIPS (Tecnica-Inteligência-Personalidade-Speed (velocidade)..
segunda-feira, 29 de março de 2010
Breve resumo histórico do futebol em Portugal
O primeiro jogo de futebol realizado em Portugal terá sido disputado em Cascais, em Outubro de 1888, organizado pelos irmãos Pinto Basto, Eduardo, Frederico e Guilherme, pois este último já em 1884 trouxera para Portugal a primeira bola de futebol, como recordação de estudante e praticante desportivo em Inglaterra.
Cinco anos depois disputou-se novo jogo entre uma selecção dos grupos que se exibiram em Cascais e uma equipa formada por ingleses. E escolheu-se um terreno em Lisboa, para que a propaganda do jogo pudesse chegar ao povo. Num terreiro situado no Campo Pequeno, onde depois foi construída a praça de toiros, marcaram-se linhas e puseram-se balizas. E fez-se o desafio. E a seguir, muitos desafios — porque dia a dia o futebol captava adeptos. Todos os jovens queriam experimentar a sensação de dar um pontapé numa bola. E assim começaram a surgir grupos e mais tarde clubes.
Os primeiros clubes — O primeiro foi o Club Lisbonense, que teve origem no Colégio Lisbonense mais conhecido por Vilar e que terá sido fundado no Inverno de 1889. A seguir surgiu o Real Ginásio Club Português, já fundado em 1875, que também aderiu a este novo sport. O Carcavelos Club, constituído por trabalhadores ingleses do Cabo Submarino, era o mais forte e temido. Outros foram surgindo e desaparecendo, mas foram os grupos escolares que deram grande impulso à divulgação deste jogo: Colégio Vilar, Escola Nacional e sobretudo a Casa Pia, que viu nascer centenas de jogadores e alguns dos melhores que o nosso futebol registou.
No Norte de Portugal também o futebol estendeu as suas raízes, através da colónia inglesa e do Oporto Cricket and Lawn-Tennis Club. O entusiasmo gerado por este novo jogo levou a que, em 1894, se tenha disputado o I Porto-Lisboa com o alto patrocínio do Rei D. Carlos I.
A organização clubista seria a raiz do desporto português e começou com o futebol. O agrupamento de entusiastas fez-se aqui e além, criando-se núcleos (clubes) cujo despique impulsionava o futebol. E foi por vontade dos clubes que nasceu a Liga de Football Association, a primeira entidade orientadora do futebol em Portugal. Mas a Liga teve vida efémera.
Fundada a primeira Associação — Em 23 de Setembro de 1910 é fundada a Associação de Futebol de Lisboa, que seria a pioneira das 22 agora existentes. O Campeonato de Lisboa foi, durante muitos anos, a principal prova portuguesa porque reuniu os melhores jogadores e clubes como Benfica, Sporting, Belenenses ou Carcavelinhos. Com o futebol a crescer nas duas principais cidades e também no Algarve, no Minho, na Madeira e em tantas outras localidades, mais se acentuava a necessidade de criação de um organismo que coordenasse a actividade em todo o País. Assim, e por iniciativa das três Associações existentes (Lisboa, Porto e Portalegre), é fundada em 31 de Março de 1914 a União Portuguesa de Futebol.
Devido à eclosão da I Grande Guerra Mundial (1914-18) com militares portugueses nela envolvidos, este organismo limitou-se praticamente a dar autorização aos jogos entre clubes portugueses e estrangeiros, a realizar jogos entre selecções de Lisboa e do Porto e a oficializar a inscrição de Portugal na FIFA.
Finalmente a Federação — Só mais tarde, por deliberação do Congresso de 28 de Maio de 1926, a União passou a denominar-se Federação Portuguesa de Futebol, que chamou a si a organização das principais seguintes provas: Campeonato de Portugal (1922-38, prova em sistema de eliminatórias para apurar o campeão nacional), Campeonato da I Liga (1934-38, prova no sistema de todos contra todos, para estudar a viabilidade dum campeonato nacional), Campeonato da II Liga (1934-38, prova semelhante à anterior mas aberta aos clubes de todas as associações), Campeonato Nacional da I Divisão (desde 1938, depois duma reestruturação das provas federativas), Campeonato Nacional da II Divisão (de 1938 a 1990, semelhante à I Divisão mas dividido por grupos geográficos), Campeonato Nacional da III Divisão (desde 1947), Supertaça Cândido de Oliveira (desde 1980, disputada entre o campeão nacional e o vencedor da Taça de Portugal) e Campeonato
Cinco anos depois disputou-se novo jogo entre uma selecção dos grupos que se exibiram em Cascais e uma equipa formada por ingleses. E escolheu-se um terreno em Lisboa, para que a propaganda do jogo pudesse chegar ao povo. Num terreiro situado no Campo Pequeno, onde depois foi construída a praça de toiros, marcaram-se linhas e puseram-se balizas. E fez-se o desafio. E a seguir, muitos desafios — porque dia a dia o futebol captava adeptos. Todos os jovens queriam experimentar a sensação de dar um pontapé numa bola. E assim começaram a surgir grupos e mais tarde clubes.
Os primeiros clubes — O primeiro foi o Club Lisbonense, que teve origem no Colégio Lisbonense mais conhecido por Vilar e que terá sido fundado no Inverno de 1889. A seguir surgiu o Real Ginásio Club Português, já fundado em 1875, que também aderiu a este novo sport. O Carcavelos Club, constituído por trabalhadores ingleses do Cabo Submarino, era o mais forte e temido. Outros foram surgindo e desaparecendo, mas foram os grupos escolares que deram grande impulso à divulgação deste jogo: Colégio Vilar, Escola Nacional e sobretudo a Casa Pia, que viu nascer centenas de jogadores e alguns dos melhores que o nosso futebol registou.
No Norte de Portugal também o futebol estendeu as suas raízes, através da colónia inglesa e do Oporto Cricket and Lawn-Tennis Club. O entusiasmo gerado por este novo jogo levou a que, em 1894, se tenha disputado o I Porto-Lisboa com o alto patrocínio do Rei D. Carlos I.
A organização clubista seria a raiz do desporto português e começou com o futebol. O agrupamento de entusiastas fez-se aqui e além, criando-se núcleos (clubes) cujo despique impulsionava o futebol. E foi por vontade dos clubes que nasceu a Liga de Football Association, a primeira entidade orientadora do futebol em Portugal. Mas a Liga teve vida efémera.
Fundada a primeira Associação — Em 23 de Setembro de 1910 é fundada a Associação de Futebol de Lisboa, que seria a pioneira das 22 agora existentes. O Campeonato de Lisboa foi, durante muitos anos, a principal prova portuguesa porque reuniu os melhores jogadores e clubes como Benfica, Sporting, Belenenses ou Carcavelinhos. Com o futebol a crescer nas duas principais cidades e também no Algarve, no Minho, na Madeira e em tantas outras localidades, mais se acentuava a necessidade de criação de um organismo que coordenasse a actividade em todo o País. Assim, e por iniciativa das três Associações existentes (Lisboa, Porto e Portalegre), é fundada em 31 de Março de 1914 a União Portuguesa de Futebol.
Devido à eclosão da I Grande Guerra Mundial (1914-18) com militares portugueses nela envolvidos, este organismo limitou-se praticamente a dar autorização aos jogos entre clubes portugueses e estrangeiros, a realizar jogos entre selecções de Lisboa e do Porto e a oficializar a inscrição de Portugal na FIFA.
Finalmente a Federação — Só mais tarde, por deliberação do Congresso de 28 de Maio de 1926, a União passou a denominar-se Federação Portuguesa de Futebol, que chamou a si a organização das principais seguintes provas: Campeonato de Portugal (1922-38, prova em sistema de eliminatórias para apurar o campeão nacional), Campeonato da I Liga (1934-38, prova no sistema de todos contra todos, para estudar a viabilidade dum campeonato nacional), Campeonato da II Liga (1934-38, prova semelhante à anterior mas aberta aos clubes de todas as associações), Campeonato Nacional da I Divisão (desde 1938, depois duma reestruturação das provas federativas), Campeonato Nacional da II Divisão (de 1938 a 1990, semelhante à I Divisão mas dividido por grupos geográficos), Campeonato Nacional da III Divisão (desde 1947), Supertaça Cândido de Oliveira (desde 1980, disputada entre o campeão nacional e o vencedor da Taça de Portugal) e Campeonato
domingo, 28 de março de 2010
Metodologia do treino técnico-táctico *
Conceitos e preconceitos
No treino global duma equipa de futebol todos os sectores, princípios e fundamentos são importantes, tornando-se difícil eleger um deles como o mais marcante, ou imprescindível, ao qual deve ser dada maior importância, no sentido de ser melhor ou mais aturadamente trabalhado. Contudo, se tivermos que atribuir uma importância funcional diferenciada ela recairá por certo no apuro técnico-táctico por ser o eixo fundamental do jogo e o motor de desempenho essencial da equipa em campo.
Ao fim e ao cabo tudo se movimenta em torno deste binómio, constituindo-se os restantes elementos em factores de alicerce indispensáveis, embora funcionando mais como partes essenciais de um todo e não o cerne fundamental do envolvimento geral duma equipa.
Ao longo dos tempos os esquemas de trabalho foram proliferando, funcionando quase sempre a razão e o status de cada momento ao sabor das modas da ocasião, pouco importando que os resultados possam consagrar ou não os esquemas em uso, sendo mais fácil e tradicional a via punitiva do treinador, que não soube interpretar com acerto a moda em curso, já que o “castigo”, a recair sobre meia dúzia jogadores da equipa – muitas vezes o cerne da questão – sempre se mostrou, e mostrará, uma via difícil, cara e pouco consentânea com a perspectiva de necessidade de outros resultados no jogo seguinte.
Hoje em dia as novas modas continuam a ditar as suas regras, porque há sempre alguém que se rebela contra os consensos instituídos, criando uma nova ordem que fará escola e nova razão, até que outro “revolucionário” se decida a romper o alinhamento da última certeza e procure instituir outra.
No fundo, o futebol não diverge muito da evolução natural das coisas, onde o que hoje é verdade amanhã é mentira, ou no mínimo, menos verdade. Sem pretender revolucionar o que quer que seja, atrevo-me a percorrer um espaço de transcendente importância e, nesse sentido, sujeito a uma enorme multiplicidade de opiniões, conceitos e preconceitos.
Refiro-me à metodologia do treino técnico-táctico, ou seja, a determinação dos melhores caminhos que hão-de conduzir os atletas à compreensão e integração dos elementos de trabalho propostos ao longo de semanas e meses, tornando possível exprimir posteriormente o jogo na sua globalidade, segundo as ideias e os conceitos do treinador.
Algumas regras que aqui se pretendem abordar são aplicáveis quer à condição técnica quer ao entrosamento táctico, até porque a primeira cabe na segunda, colhendo dessa sobreposição múltiplos benefícios.
Aqui há tempos um amigo meu que é treinador de futebol convidou-me para ir assistir a um treino da equipa que na altura estava a orientar.
Entre vários exercícios desenvolvia-se um em que quatro jogadores, partindo da linha de meio campo, progrediam pela ala direita numa troca de bola vistosa – praticamente quase sempre ao primeiro toque – desenhando um determinado esquema pré determinado e de belo efeito visual.
O exercício desenvolvia-se em grande velocidade com os jogadores a percorrerem, numa corrida desenfreada, um figurino previamente traçado, sem qualquer oposição, terminando com um remate à baliza deserta, desferido da zona frontal.
Registe-se que, mesmo sem guarda-redes, alguns remates saíram ao lado… Esta última e estranha circunstância fica, em parte, a dever-se a rotinas e evoluções simplificadas, onde as propostas de trabalho se resumem a memorizar percursos e a uma diminuta participação activa na representação criada.
Em conversa no dia seguinte, referindo-se àquele exercício, o meu amigo perguntava-me:
“Então o que achaste daquele exercício?”
“Achei que foi um razoável treino de velocidade, uma coreografia interessante, de mistura com alguns elementos técnicos, embora incipientes…”
“Não! Aquilo foi um ensaio de um esquema táctico. Uma progressão organizada pela ala direita.” – respondia-me o meu amigo, corrigindo-me.
Meio na brincadeira ainda retorqui:
“Pois. Mas o adversário era fracote…” – ante alguma perplexidade do meu amigo.
“Adversário? Qual adversário?“
“Aquele contra o qual os quatro jogadores jogavam…”
É um pouco à volta deste exemplo que nos queríamos deter, chamando à atenção para um erro crasso que é cometido com alguma frequência.
Neste caso, propus ao meu amigo a realização de um pequeno teste, que ele aceitou de bom grado.
No dia seguinte repetiu-se o mesmo exercício. Só que desta vez foi colocado apenas 1 jogador com características defensivas a meio do percurso com a missão de procurar dificultar aquela acção esquemática ofensiva. Um jogador apenas.
Em 6 exercícios, 2 falharam: um foi interceptado pelo único jogador com carácter defensivo e o outro ocorreu num passe errado em que a bola foi enviada para fora por acção de pressão do mesmo jogador.
Ou seja; com apenas 1 jogador contra 4 atacantes o “esquema táctico” falhou em 33%.
De seguida colocaram-se 2 jogadores com idêntica função de procurar dificultar a acção ofensiva em questão.
Em 10 exercícios 6 falharam: 3 foram interceptados e os ouros 3 resultaram em passes errados por acção pressionante dos defesas.
Ou seja; com 2 jogadores contra 4 o “esquema táctico” falhou em 60%.
Quando me preparava para propor um 4X4 final e mais esclarecedor ainda, o meu amigo atalhou:
“Chega! Já percebi. Ontem estivemos a perder tempo.”
“Não terá sido bem assim. Qualquer movimentação com bola e deslocação dos jogadores, segundo um determinado figurino, obtém um ganho técnico mínimo que seja, dependendo da complexidade e esquema do exercício. Contudo, em termos tácticos, o ganho é nulo.Mas o verdadeiro treino técnico-táctico ia começar agora…” – informei eu.
Com alguma insistência consegui convencer o meu amigo – em trânsito de alguma frustração – a empreender uma outra experiência com um figurino semelhante.
Ainda no mesmo contexto de exercício, promovendo alguma rotatividade equilibrada entre os jogadores de ambos os sectores, a fim de despistar o factor cansaço, colocaram-se 4 jogadores defensores e os 4 atacantes, rodando 2 jogadores em cada sector de 3 em 3 repetições.
Foi proposta a realização de 3 séries, com seis repetições cada uma, num total de 18 repetições, anotando-se os resultados em cada uma das séries.
Obtiveram-se os seguintes resultados:
1ª série: 0 concretizações; 6 erros.
2ª série: 1 concretização; 5 erros.
3ª série: 3 concretizações: 3 erros.
Embora o teste careça de algum rigor científico considerando a diminuta amostragem, afigura-se claro que o treino começou a produzir alguns efeitos na 3ª série.
Ou seja; ao fim de um certo número de repetições os jogadores envolvidos no sector atacante (sem que algum esquema tenha sido delineado com antecedência para esse efeito específico) começaram a intuir e a elaborar soluções aplicáveis às dificuldades criadas pelos jogadores do sector defensivo, desenvolvendo aquisições que têm todas as condições para se firmarem no modo de jogar, logo reutilizáveis em contextos semelhantes, logo um conjunto de instrumentos activos disponíveis para aplicação nas mais variadas circunstâncias de jogo.
Na perspectiva de trabalho do tal “esquema táctico” inicial sem qualquer oposição, visando o entrosamento entre os jogadores – que, naturalmente, se espera poder colocar em prática nos próximos jogos e no futuro – o ganho é praticamente nulo e frequentemente frustrante para o técnico, que engendrou um encadeamento de movimentos aparentemente perfeito e, dir-se-ia mesmo, belo para a vista e para o espírito.
Não raras vezes se podem observar evoluções de jogadores em treino mais parecendo uma coreografia muito bem articulada, deixando no ar apenas o desejo ardente de que a mesma se repita no próximo jogo, mas desta vez por entre os adversários que, infelizmente, não se disporão a fazer figura de espectadores, nem muito menos dispostos a apreciar o “espectáculo”.
Salvo raras excepções de componente técnica muito específica e precisa, nenhum exercício que envolva apuramento táctico ou técnico colhe resultados se for esquematizado e exercitado sem a componente de oposição imprescindível à sua consolidação.
Em primeiro lugar pela própria essência do elemento estrutural do homem. Dificilmente este consolida aquisições quando a estrutura do exercício se apresenta simplificada e destituída da necessidade de resolução de problemas que agucem o engenho e a arte para as superar.
A extrema simplicidade repetitiva de um exercício conduz à mecanização do movimento, dispersão da atenção e abaixamento consequente dos mecanismos de aquisição e integração.Qualquer exercício concebido sem a necessária oposição é, pois, num contexto de assimilação e elaboração, uma pura perda de tempo, mas, mais ainda, uma convicção de um bem treinar que não colhe posteriormente as performances que delas se esperam.
Não só, mas também porque se trata de uma proposição de trabalho que não confere com a realidade; logo destituída de factores de transposição útil para o jogo, condição essencial que deve prevalecer em todas as propostas de trabalho que venham a ser congeminadas no sentido da promoção de aquisições fundamentais no contexto técnico-táctico.
O adestramento em treino de uma movimentação simples com a pretensão, ou esperança, de que esta venha a ocorrer em jogo é um puro exercício de fé e a convicção de que treinamos sós na expectativa de que iremos jogar também sós.
Dizia um dia um treinador ao intervalo:
“Andámos nós duas semanas a treinar aquele esquema para agora nem uma única vez o colocarem em prática.”
Respondia um dos jogadores visados, revelando alguma confusão no seu espírito:
“ Se quer que lhe diga Mister, com a confusão do jogo, já nem me lembro bem como era o esquema, quanto mais colocá-lo em prática…”
Subjaz ainda que é no confronto entre quem defende e ataca que ocorre o entrosamento e o entendimento quanto à forma como cada companheiro responde às dificuldades colocadas pelo adversário, resultando na aquisição de soluções de grupo, adquiridas e consolidadas pelos jogadores (tendo em conta o conhecimento com que ficam do modo de jogar de cada um deles) as quais poderão no futuro – qualquer futuro – contribuir de forma cabal e racional para a performance desejada por qualquer técnico: levar de vencida a oposição do adversário e chegar ao golo.
No fundo, o importante será inculcar no atleta a capacidade de tomar decisões acertadas em consonância com os companheiros e de acordo com os múltiplos problemas que ocorrem no jogo, reformulando, de forma inteligente e coerente, todo o tipo de dificuldades criadas pelo adversário e as próprias vicissitudes do jogo.
Na perspectiva do exercício em apreço, e a título de exemplo, sugere-se como metodologia a divisão de um meio campo em três faixas longitudinais (ala esquerda, central e ala direita) colocando em cada uma delas os jogadores que defendem habitualmente nessas zonas, em confronto com igual (inferior ou superior) número de jogadores atacantes (dependendo da intensidade e especificidade de treino que se pretende incutir, convindo alternar pelas três situações).
P.e.: se coloco um número de atacantes superior ao número de defesas o trabalho terá uma incidência de intensidade maior para os jogadores que defendem, tornando mais fácil (logo, mais exigente em termos de resultante) a tarefa dos atacantes.
Objectivo: bola nos atacantes que procuram ultrapassar aquela barreira defensiva, no espaço delimitado por cada corredor, criando e recriando os meios e as formas mais adequadas e ajustadas às diferentes oposições que vierem a ser colocadas pelos jogadores que defendem.
A largura dos corredores deve ir variando ao longo de cada sessão de treino, procurando simular situações de dificuldade de jogo criadas pelo adversário e as variantes do próprio jogo.
Embora seja importante que os jogadores evoluam preferencialmente nos sectores predominantes da sua actuação, será ajustado que ocorram trocas de proximidade entre alguns jogadores das alas e a faixa central, ou mesmo outras que o técnico entenda conformes, tendo em conta a disponibilidade e globalidade de funções de cada jogador.
Por outro lado, será uma boa medida ir mudando os jogadores em confronto, a fim de variar o tipo, forma e a intensidade da oposição, subvertendo igualmente algum vício.Como conceito adjacente, neste tipo de exercício sugere-se a utilização de jogadores momentaneamente inactivos (guarda redes, p.e.) para controlo dos foras de jogo. Nada pior que treinar os erros.
A partir da criação de um método com virtudes para a obtenção dos objectivos que se pretendem, todas as nuances, conjugações e reformulações são permitidas e desejáveis, tornando o treino mais rico e diversificado, retirando-lhe a monotonia, a rotina e a própria habituação a um esquema monocórdico com todos os inconvenientes daí resultantes.
O técnico não deve mudar apenas para mudar, dando a ideia de novidade.Deve mudar quando sentir que se instalou o vício e as suas consequências.
Contudo, mudar não significa reformular tudo. Um exercício, sendo um bom exercício, não deve ser substituído só para criar novidade. Mudar pode ser conseguido apenas com pequenas alterações dentro do mesmo esquema de trabalho, que conduzam à reformulação da actuação do jogador obrigando-o à busca de novas soluções; logo, activo, atento e empenhado, ou seja, disponível para as novas aquisições, a que o treino deve sempre obrigar, e permanentemente entusiasmado com a variedade, alternância e riqueza de problemas que lhe são colocados.
Um atleta atento e vivo no treino será um atleta atento e vivo no jogo.
* Pedro Cabrita
(Lic. em Ed. Física)
sábado, 27 de março de 2010
Opinião
Por Carlos Campos
Ao realizar o ritual habitual de vasculhar memórias, felizmente ainda recentes, das aulas de Metodologia de Futebol do Professor Vítor Frade, encontrei uma crónica de Mourinho para a revista Record DEZ de 15 de Outubro de 2005 onde este procura desmontar uma série de conceitos chave em redor do seu entendimento acerca do Treino. Recordo-me bem de algumas polémicas geradas em torno destas questões, muitas dúvidas e mal-dizer que ainda hoje persistem naqueles que, por maldade ou incapacidade, não aceitam a diferença relativamente a uma forma de operacionalizar o processo de Treino. Depois disto já muita tinta correu, mas esta crónica não perdeu pertinência e este parece-me ser o espaço de eleição para a reavivar. Da minha parte atrevi-me a analisá-la à luz daquilo que acredito, interpreto e julgo saber.
“(...) Desculpem-me os que são crentes, mas para nós não passam de vocabulário desactualizado.
Refiro-me a conceitos como treino físico, preparação física, pastas de preparação física, entre outros. Não critico quem pensa desta forma. Critico quem compara o nosso processo com outros processos. Os processos de treino e competição são todos diferentes. Para nós é uma questão de concepção, mas mais do que isso é uma questão de “operacionalização”.
Começo por dizer o que tenho dito noutras alturas: não tenho preparador físico, pelo que não posso ter pastas de preparação física, pois como líder responsável pelo processo não teria pasta para lhe dar! Tenho sim colaboradores no processo de treino e jogo, com funções muito específicas, de acordo com as necessidades de gestão de uma época longa. Tudo se relaciona com a forma como treinamos. Não temos espaço para o treino físico, isto é, não temos espaço para os tradicionais treinos de resistência, força ou velocidade. É tudo uma questão de comportamentos! (...)”
Logo a abrir, Mourinho tem como primeira preocupação separar aquilo que é manifestamente oposto. Embora os mais distraídos ou menos lúcidos insistam em usar o mesmo rótulo para o treino de Mourinho e para o treino dos demais, isso encerra um erro tanto mais grave quantas mais são as vozes que procuram, pacientemente, explicar que existem diferenças abissais tais como as que permitem a distinção entre a densa Floresta Amazónica e o arenoso Deserto do Saara. Mesmo assim, a maioria continua a cair no erro de passear de camelo na Amazónia, daí a necessidade que Mourinho sentiu em, pela enésima vez, marcar aquilo que distingue a sua metodologia das demais.
Uma dessas marcas é, indubitavelmente, a ausência de “pastas de preparação física”, pois, na periodização do treino, Mourinho direcciona as suas preocupações noutra frequência. Contudo, esse referencial “físico” está de tal modo enraizado no treino desportivo em geral, e no Futebol em particular, que poucos são aqueles que conseguem entender, de uma vez por todas, que é possível haver alguém com sucesso estrondoso tendo como referência para o seu trabalho diário outra dimensão que não a física. E se são poucos os que entendem que é possível trabalhar desta forma, são ainda menos os que conseguem compreender o que está inerente a esta metodologia. E menos ainda aqueles que, depois de cumprirem as condições atrás enunciadas, conseguem operacionalizar o Treino segundo as demandas da Periodização Táctica. Reside aqui a explicação para o facto de Mourinho dizer que, antes de uma questão de operacionalização, é uma questão de concepção, pois a distância para o entendimento e aceitação desta metodologia é ainda de tal ordem gigantesca que não faz sequer sentido colocar a ênfase na operacionalização. Para se lá chegar ainda é preciso interiorizar que existe este conceito, esta metodologia, esta forma de pensar o Treino!
Os “colaboradores do processo de treino e de jogo” que Mourinho fala seguem a lógica de uma metodologia amplamente virada para a melhoria do “jogar” da equipa sendo a referência desse “jogar bem” o modelo de jogo definido e diariamente trabalhado. Isto é bem diferente de ter uma pessoa responsável pela componente física, pois aí a referência é outra e passamos a falar numa forma de periodizar o treino que nada tem a ver com aquilo que o então treinador de Chelsea defende. Não é somente uma questão de vocabulário. Não! É muito mais que isso!
“(...) Exercitamos o nosso modelo de jogo, exercitamos os nossos princípios e subprincípios de jogo, adaptamos os jogadores a ideias comuns a todos, de forma a estabelecer a mesma linguagem comportamental. Trabalhamos exclusivamente as situações de jogo que me interessam, fazemos a sua distribuição semanal de acordo com a nossa lógica de recuperação, treino e competição, progressividade e alternância. Criamos hábitos com vista à manutenção da forma desportiva da equipa, que se traduz por um frequente “jogar bem”. (...)”
O “jogar” torna-se, assim, o aspecto central de todo e qualquer processo metodológico e é em torno dele que tudo se desenvolve. A compartimentação de treino técnico, treino táctico e treino físico é algo que Mourinho não faz. O treino é sempre totalmente integral (o que é diferente de integrado!). Os ditos factores são integrados na medida em que todos os exercícios têm um objectivo táctico que os estrutura. A manipulação das condicionantes tempo, espaço, regras, etc, exercem também uma influência fundamental. Os fins estão sempre nos jogos! A predominância táctica é sempre trabalhada no contexto próximo da realidade e assim aparece o físico e o técnico mais específicos. A especificidade está presente quando, sendo capazes de caracterizar os princípios de jogo, o sistema que se vai privilegiar e as características dos jogadores que temos, actuamos sobre cada uma das nossas preocupações.
O modelo de jogo definido é constituído por princípios, subprincípios e sub-subprincípios de jogo e é sobre a melhoria destes comportamentos que se direcciona todo o processo de treino e aqui a melhoria diz respeito a tudo que os envolve sendo que, no final, o que se pretende é que todos os compreendam e interpretem eficazmente, traduzindo-se isso na “mesma linguagem comportamental” de que Mourinho fala. Esta lógica adquire uma complexidade tal que seria impensável estar a misturar isto com referenciais físicos.
A lógica de recuperação, treino e competição assenta na progressividade e alternância horizontal. Aprofundando ligeiramente estes dois conceitos podemos dizer que a ideia de progressão tem a ver com o modo como se passa de uns dias para os outros ser diverso, sendo que isso tem consequências evidentes. Isto resulta da circunstância de nos diferentes dias se trabalharem diferentes coisas, ou seja, há uma alternância, mas uma alternância horizontal: em cada dia trabalham-se coisas diferentes do “jogar” que se pretende.
O outro princípio que rege a Periodização Táctica é o princípio das propensões e consiste, sucintamente, na contextualização de determinadas coisas para que aquilo que se quer que aconteça, aconteça mais vezes. Isto é, concebe-se determinado contexto com o intuito de que ele conduza a determinado comportamento desejado.
O “jogar bem” de que nos fala Mourinho não é um “Jogar Bem” universal mas sim referenciado àquilo que se inscreve no seu modelo de jogo. Cada treinador almeja que a sua equipa jogue de determinada forma, contudo o caminho que cada um segue em busca do cumprimento dos comportamentos concordantes com o que o treinador pretende é que diverge substancialmente. Mourinho faz questão de assumir e explicar a metodologia que segue de modo a que as confusões e sobreposições indevidas desapareçam definitivamente.
“(...) Sei que é uma questão difícil de desmontar sob o ponto de vista cultural. Além do mais existem pessoas, por direito próprio, a pensar de forma radicalmente oposta. Mesmo para os que dizem treinar com situações de jogos reduzidos, porque mesmo esses vivem agarrados e obcecados com tempos de exercitação, de repouso, repetições, etc. Todas estas questões são para nós “acessórias”. O que é crucial é mesmo o conteúdo de princípios de jogo inerentes a cada exercício e a relação interactiva que estabelecemos com o mesmo. O que é mesmo fundamental é entender que aquilo que procuramos é a qualidade de trabalho e não a quantidade, treinar para jogar melhor.”
Culturalmente, e conforme já foi acima explicado, o referencial físico no treino é tido como universal e inquestionável, pois quase todos os trabalhos científicos publicados versam sobre esta temática. De facto, conforme diz Mourinho, existem “pessoas a pensar de forma radicalmente oposta”, mas importa salientar que a estrutura científica convida a trabalhos facilmente quantificáveis, de preferência com valores numéricos e, aí, entra o “publish or perish”, a pressão da publicação “obrigatória”. Tudo puxa para o mesmo lado e mesmo com o sucesso que Mourinho tem conseguido, poucos são os que realmente conseguem ir ao cerne da base que o sustenta, pois vivemos rodeados por conceitos bloqueadores de tal compreensão.
Por fim, Mourinho faz mais uma vez questão de deixar bem vincado que não tem nada contra as outras metodologias, sendo sua única intenção não permitir que essas se confundam com a “sua”. Neste contexto, surge a alusão ao treino integrado que, sistematicamente, surge como sendo aquilo que Mourinho faz. Os menos alertados para as questões desta metodologia julgam que arranjar um contexto jogado e, a partir daí, prolongá-lo mais ou menos tempo, intervalá-lo, promovendo alterações no espaço e no tempo visando solicitar mais ou menos este ou aquele sistema energético estão a operacionalizar a Periodização Táctica. Nada mais errado! Isto conduz-nos à ideia da preparação física com bola o que nos remete para o Treino Integrado onde a principal referência continua a ser o físico.
Quem efectivamente operacionaliza o treino segundo os pressupostos da Periodização Táctica tem como grande preocupação a operacionalização de uma ideia de jogo, ou seja, aquilo que mais marcadamente distingue a Periodização Táctica das demais é o facto de ter em conta o modelo de jogo o que, em termos de complexidade, ultrapassa largamente o ter em conta somente a modalidade. O entendimento de que, em competição, a organização de jogo é o que marca verdadeiramente a diferença. Daí que seja a dimensão táctica (não uma Táctica abstracta, mas os princípios de jogo) a coordenar todo o processo de treino semanal.
“(...) Desculpem-me os que são crentes, mas para nós não passam de vocabulário desactualizado.
Refiro-me a conceitos como treino físico, preparação física, pastas de preparação física, entre outros. Não critico quem pensa desta forma. Critico quem compara o nosso processo com outros processos. Os processos de treino e competição são todos diferentes. Para nós é uma questão de concepção, mas mais do que isso é uma questão de “operacionalização”.
Começo por dizer o que tenho dito noutras alturas: não tenho preparador físico, pelo que não posso ter pastas de preparação física, pois como líder responsável pelo processo não teria pasta para lhe dar! Tenho sim colaboradores no processo de treino e jogo, com funções muito específicas, de acordo com as necessidades de gestão de uma época longa. Tudo se relaciona com a forma como treinamos. Não temos espaço para o treino físico, isto é, não temos espaço para os tradicionais treinos de resistência, força ou velocidade. É tudo uma questão de comportamentos! (...)”
Logo a abrir, Mourinho tem como primeira preocupação separar aquilo que é manifestamente oposto. Embora os mais distraídos ou menos lúcidos insistam em usar o mesmo rótulo para o treino de Mourinho e para o treino dos demais, isso encerra um erro tanto mais grave quantas mais são as vozes que procuram, pacientemente, explicar que existem diferenças abissais tais como as que permitem a distinção entre a densa Floresta Amazónica e o arenoso Deserto do Saara. Mesmo assim, a maioria continua a cair no erro de passear de camelo na Amazónia, daí a necessidade que Mourinho sentiu em, pela enésima vez, marcar aquilo que distingue a sua metodologia das demais.
Uma dessas marcas é, indubitavelmente, a ausência de “pastas de preparação física”, pois, na periodização do treino, Mourinho direcciona as suas preocupações noutra frequência. Contudo, esse referencial “físico” está de tal modo enraizado no treino desportivo em geral, e no Futebol em particular, que poucos são aqueles que conseguem entender, de uma vez por todas, que é possível haver alguém com sucesso estrondoso tendo como referência para o seu trabalho diário outra dimensão que não a física. E se são poucos os que entendem que é possível trabalhar desta forma, são ainda menos os que conseguem compreender o que está inerente a esta metodologia. E menos ainda aqueles que, depois de cumprirem as condições atrás enunciadas, conseguem operacionalizar o Treino segundo as demandas da Periodização Táctica. Reside aqui a explicação para o facto de Mourinho dizer que, antes de uma questão de operacionalização, é uma questão de concepção, pois a distância para o entendimento e aceitação desta metodologia é ainda de tal ordem gigantesca que não faz sequer sentido colocar a ênfase na operacionalização. Para se lá chegar ainda é preciso interiorizar que existe este conceito, esta metodologia, esta forma de pensar o Treino!
Os “colaboradores do processo de treino e de jogo” que Mourinho fala seguem a lógica de uma metodologia amplamente virada para a melhoria do “jogar” da equipa sendo a referência desse “jogar bem” o modelo de jogo definido e diariamente trabalhado. Isto é bem diferente de ter uma pessoa responsável pela componente física, pois aí a referência é outra e passamos a falar numa forma de periodizar o treino que nada tem a ver com aquilo que o então treinador de Chelsea defende. Não é somente uma questão de vocabulário. Não! É muito mais que isso!
“(...) Exercitamos o nosso modelo de jogo, exercitamos os nossos princípios e subprincípios de jogo, adaptamos os jogadores a ideias comuns a todos, de forma a estabelecer a mesma linguagem comportamental. Trabalhamos exclusivamente as situações de jogo que me interessam, fazemos a sua distribuição semanal de acordo com a nossa lógica de recuperação, treino e competição, progressividade e alternância. Criamos hábitos com vista à manutenção da forma desportiva da equipa, que se traduz por um frequente “jogar bem”. (...)”
O “jogar” torna-se, assim, o aspecto central de todo e qualquer processo metodológico e é em torno dele que tudo se desenvolve. A compartimentação de treino técnico, treino táctico e treino físico é algo que Mourinho não faz. O treino é sempre totalmente integral (o que é diferente de integrado!). Os ditos factores são integrados na medida em que todos os exercícios têm um objectivo táctico que os estrutura. A manipulação das condicionantes tempo, espaço, regras, etc, exercem também uma influência fundamental. Os fins estão sempre nos jogos! A predominância táctica é sempre trabalhada no contexto próximo da realidade e assim aparece o físico e o técnico mais específicos. A especificidade está presente quando, sendo capazes de caracterizar os princípios de jogo, o sistema que se vai privilegiar e as características dos jogadores que temos, actuamos sobre cada uma das nossas preocupações.
O modelo de jogo definido é constituído por princípios, subprincípios e sub-subprincípios de jogo e é sobre a melhoria destes comportamentos que se direcciona todo o processo de treino e aqui a melhoria diz respeito a tudo que os envolve sendo que, no final, o que se pretende é que todos os compreendam e interpretem eficazmente, traduzindo-se isso na “mesma linguagem comportamental” de que Mourinho fala. Esta lógica adquire uma complexidade tal que seria impensável estar a misturar isto com referenciais físicos.
A lógica de recuperação, treino e competição assenta na progressividade e alternância horizontal. Aprofundando ligeiramente estes dois conceitos podemos dizer que a ideia de progressão tem a ver com o modo como se passa de uns dias para os outros ser diverso, sendo que isso tem consequências evidentes. Isto resulta da circunstância de nos diferentes dias se trabalharem diferentes coisas, ou seja, há uma alternância, mas uma alternância horizontal: em cada dia trabalham-se coisas diferentes do “jogar” que se pretende.
O outro princípio que rege a Periodização Táctica é o princípio das propensões e consiste, sucintamente, na contextualização de determinadas coisas para que aquilo que se quer que aconteça, aconteça mais vezes. Isto é, concebe-se determinado contexto com o intuito de que ele conduza a determinado comportamento desejado.
O “jogar bem” de que nos fala Mourinho não é um “Jogar Bem” universal mas sim referenciado àquilo que se inscreve no seu modelo de jogo. Cada treinador almeja que a sua equipa jogue de determinada forma, contudo o caminho que cada um segue em busca do cumprimento dos comportamentos concordantes com o que o treinador pretende é que diverge substancialmente. Mourinho faz questão de assumir e explicar a metodologia que segue de modo a que as confusões e sobreposições indevidas desapareçam definitivamente.
“(...) Sei que é uma questão difícil de desmontar sob o ponto de vista cultural. Além do mais existem pessoas, por direito próprio, a pensar de forma radicalmente oposta. Mesmo para os que dizem treinar com situações de jogos reduzidos, porque mesmo esses vivem agarrados e obcecados com tempos de exercitação, de repouso, repetições, etc. Todas estas questões são para nós “acessórias”. O que é crucial é mesmo o conteúdo de princípios de jogo inerentes a cada exercício e a relação interactiva que estabelecemos com o mesmo. O que é mesmo fundamental é entender que aquilo que procuramos é a qualidade de trabalho e não a quantidade, treinar para jogar melhor.”
Culturalmente, e conforme já foi acima explicado, o referencial físico no treino é tido como universal e inquestionável, pois quase todos os trabalhos científicos publicados versam sobre esta temática. De facto, conforme diz Mourinho, existem “pessoas a pensar de forma radicalmente oposta”, mas importa salientar que a estrutura científica convida a trabalhos facilmente quantificáveis, de preferência com valores numéricos e, aí, entra o “publish or perish”, a pressão da publicação “obrigatória”. Tudo puxa para o mesmo lado e mesmo com o sucesso que Mourinho tem conseguido, poucos são os que realmente conseguem ir ao cerne da base que o sustenta, pois vivemos rodeados por conceitos bloqueadores de tal compreensão.
Por fim, Mourinho faz mais uma vez questão de deixar bem vincado que não tem nada contra as outras metodologias, sendo sua única intenção não permitir que essas se confundam com a “sua”. Neste contexto, surge a alusão ao treino integrado que, sistematicamente, surge como sendo aquilo que Mourinho faz. Os menos alertados para as questões desta metodologia julgam que arranjar um contexto jogado e, a partir daí, prolongá-lo mais ou menos tempo, intervalá-lo, promovendo alterações no espaço e no tempo visando solicitar mais ou menos este ou aquele sistema energético estão a operacionalizar a Periodização Táctica. Nada mais errado! Isto conduz-nos à ideia da preparação física com bola o que nos remete para o Treino Integrado onde a principal referência continua a ser o físico.
Quem efectivamente operacionaliza o treino segundo os pressupostos da Periodização Táctica tem como grande preocupação a operacionalização de uma ideia de jogo, ou seja, aquilo que mais marcadamente distingue a Periodização Táctica das demais é o facto de ter em conta o modelo de jogo o que, em termos de complexidade, ultrapassa largamente o ter em conta somente a modalidade. O entendimento de que, em competição, a organização de jogo é o que marca verdadeiramente a diferença. Daí que seja a dimensão táctica (não uma Táctica abstracta, mas os princípios de jogo) a coordenar todo o processo de treino semanal.
O nº 10 num 4x3x3
Será possível jogar com um número "10" ( médio organizador/desequilibrador/fantasista) num sistema 4x3x3?
Esta é uma discussão que ultimamente se ouve e lê variadíssimas vezes.
Pode haver muitas e variadas opiniões. Mas todas elas fazem sentido.
Qual a minha? Pode. Claramente, E é desejável que isso aconteça.
Se não vejamos...
Num sistema em que os três médios se distribuem num triângulo chamado normal, ou seja, 2x1, parece que não temos dúvidas. Dois médios mais defensivos e um organizador de jogo, o tal nº 10. No chamado triângulo invertido 1 médio ( trinco) e 2 interiores já se pode ter dúvidas. Mas elas dissipam-se se levarmos em linha de conta o fundamento do futebol moderno que é sem dúvida, a DINÂMICA empreendida pela equipa,
Ora se um dos interiores ( normalmente aquele que melhor dá "saída" ao jogo) tomar as " rédeas" das transições ofensivas, passa ou não a ser o tal nº 10?
E se um desses interiores for dar superioridade numérica a uma das alas, pode ou não o outro médio tomar o lugar, sabendo que tem as "costas" guardadas pelo trinco?
É este sentido de dinâmica ou jogo em movimento permanente, as basculações sempre presentes, que podem desequilibrar uma partida de futebol. Nada é estanque, e todos os espaços devem ser preenchidos por um qualquer jogador, desde que não se criem "buracos" por mau posicionamento zonal.
Assim sendo, não vejo porque razão, bem pelo contrário, se discute uma questão facilmente solucionável.
Lembram-se do F.C.Porto, campeão europeu de Mourinho? Pedro Mendes ou Costinha, Maniche e Deco, quem era que fazia de nº10? Deco ou Maniche? E quando entrava Carlos Alberto?
Pois, era a dinâmica daquela verdadeira máquina demolidora, que fazia toda a diferença.
sexta-feira, 26 de março de 2010
A ida para o Gândara ( 2ª Parte)
Começámos a trabalhar, precisamente no dia 3 de Agosto, pelas 18.30h. Uma semana depois fazíamos o primeiro jogo treino com o Pampilhosa ( actualmente na liderança da II divisão, zona centro).
E aí percebi logo que tinha uma boa equipa, pois ganhámos 2-0, com ambos os golos a serem apontados por Luisinho. Fora esse o seu 1º e último jogo antes de partir para Fornos.
Ganhámos todos os jogos da pré-época, alguns com equipas bem mais fortes teoricamente, como o O.Bairro e Anadia. Ganhámos também o torneio do Gândara,
Depois veio o campeonato onde chegámos a lideres na 3 ª jornada. O resto sabe-se como foi.
Muitos problemas que eu SOZINHO tive que resolver, por falta de acompanhamento directivo. O Presidente esteve, e está, a contas com problemas de saúde, o que o impede de dar apoio à equipa.
Foi um desgaste terrível ter que lidar constantemente com falta de luz, falta de bolas, falta de dinheiro, e somente com 16 jogadores - um único guarda-redes, pois Mauro saiu em Novembro. Só em Dezembro, e a muito custo, fui buscar mais 2 jogadores entre os quais um GR. Mais uma vez por números inacreditáveis,
Mesmo assim cumprimos o nosso papel de forma heróica. E qualificámo-nos para o play-off de apuramento de subida de divisão- algo impensável para quem fazia contas a orçamentos.
Cumprido esse objectivo, achei por bem saír. Algo que poderia ter acontecido na antepenúltima jornada depois da derrota em Fornos por 3-0. Nesse mesmo dia, liguei ao presidente a pedir a demissão. Só depois de uma reunião, curiosamente no hospital. com o presidente, ele demoveu-me a voltar atrás com a minha convicção. Podem dizer o que quiseram, mas nesse dia eu e o Patrício estávamos dispostos a saír e disso dei conhecimento ao lider da direcção,
Aguentei mais 2 jornadas, que curiosamente conseguimos vencer.
No 1º treino a seguir ao final da fase regular, quis falar em privado com os capitães para decidirmos os objectivos do play-off.
Nessa altura, o que se passou ficará para sempre comigo, com o balneário e com o presidente. Mas tinha chegado a hora de abandonar. Nesse dia ainda dei treino, mas a minha decisão estava tomada. Depois do treino liguei ao presidente e disse-lhe claramente que aquele tinha sido o meu último treino.
O presidente fez tudo para me demover, mas era tarde.
Fiquei com uma amizade com José Nogueira que ninguém conseguirá trair.
Prova disso, o telefonema de hoje, quando veio a Coimbra, a convidar-me para lanchar com ele. E que com todo o gosto aceitei. Apesar do seu feitio algo irritadiço, (principalmente quando perde...)é um homem bom e que sempre disse o que se passava a nível de dificuldades financeiras, E que fique bem claro, que na hora da saída, o vi muito triste, desiludido mesmo, e pagou-me tudo o que me devia. A mim e ao Patrício.
Tenho a certeza que fiquei amigo de quase todos os jogadores. E digo quase porque não sou cínico nem hipócrita.
O meu desejo sincero é que o Gândara suba de divisão. Muitos jogadores merecem-no inteiramente. Valor para isso não falta. Espera-se que não falte também o dinheiro ao fim do mês, como aconteceu quase a época inteira...
Posta esta descrição muito sumária sobre a minha passagem pelo Gândara, deixo um grande abraço ao Capitão Fábio Alves, em meu nome e do Patrício, para que o ofereça aos jogadores.
A partir de hoje nem mais uma palavra sobre o Gândara.
Força CAMPEÕES!!!
A ida para o Gândara
Depois de ter sido campeão distrital pela AAC-SF como treinador adjunto, senti que o meu ciclo nessa enorme Instituição tinha terminado. Direccionei as minhas ambições e objectivos para ser definitivamente treinador principal. como aliás já o tinha sido no Eirense, se bem que nas camadas jovens.
Teria aceitado na altura qualquer convite, desde que duas premissas fossem cumpridas: 1- Uma equipa sénior, ou uma equipa júnior que disputasse os nacionais.
Tive algumas hipóteses, mas apareceu o Presidente José Nogueira do Gândara com um desafio quase impossível de cumprir. Propunha-se levar a equipa à manutenção na 3ª divisão com condições surreais.
1- O mais baixo orçamento da série D
2- Somente 11 jogadores faziam parte do colectivo, pois a grande maioria dos habituais titulares do ano anterior tinham abandonado o clube.
3- Eu teria que contratar cerca de 6/7 jogadores a preço irrealista.
4- A pré- época só iria começar no dia 3 de Agosto, depois de todas as equipas já terem cerca de 15 dias de trabalho.
Era um desafio hercúleo. Ms de bom grado aceitei. Nunca viro a cara à luta, e sei o meu real valor.
Primeiro de tudo, escolhi o meu treinador adjunto. Patrício Duarte tinha tirado o I e II nível comigo, e sabia bem das suas competências.
Depois foi o correr contra o tempo e ver que atletas estavam disponíveis.
Tinha acompanhado muitos jogos da AAC-OAF juniores há vários anos para cá.
Levei para a equipa o Bruno Simões, o André Gonçalo e o Luisinho da última época de juniores, e o Garfo e Vasco da penúltima.
A 1ª contrariedade- quase impossível de superar- foi o abandono do Luisinho passado uma semana pelo facto de a mãe estar muito doente e necessitar apoio familiar. O Luís foi para a sua terra natal- Fornos de Algodres- e por lá ficou a jogar.
Para o seu lugar fui buscar o Willy, um atleta que tinha sido meu jogador na SF e que potencialmente é um atleta de eleição.
Azar dos azares, lesiona-se gravemente e tem de ser operado, não jogando mais até ao fim da época.
Paralelamente o brasileiro Rondinelle, tem um convite de uma equipa nortenha, a ganhar o triplo e o clube não tem como o segurar.
Yanick e João Tiago foram afastados do grupo por minha iniciativa por questões disciplinares.
O guarda-redes titular da época anterior tinha que fazer uma astroscopia ao menisco, tendo que parar cerca de 2 meses.
Era este o cenário, conjuntamente com uma primeira semana a treinar com cerca de 40 atletas. A grande maioria à experiência.
A equipa também não tinha massagista.
Fui eu que contratei uma fisioterapeuta, o grande erro de casting da época.... Mas isso são outros " quinhentos"...
CONTINUA...
O bicho da bola
Depois da experiência fantástica ( e com resultados sem margem para dúvidas) de treinar uma equipa da 3ª divisão nacional, volto à blogosfera para partilhar experiências sobre futebol.
No entanto, bom será dizer que a validade deste espaço terminará com o voltar à minha actiidade de treinador de futebol, algo que será, espero, muito em breve.
Não me agrada muito a ideia de apanhar equipas a meio da época, pelo que darei prioridade a quem desejar os meus serviços, no início da próxima temporada.
Para já o meu objectivo é ser seleccionado para o Curso de III nível, UEFA PRÓ, de treinadores de futebol.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
